sábado, 8 de dezembro de 2007

O livro fundador

editorial@destak.pt

ISABEL
STILWELL

Um apaixonado por livros torna-se facilmente um daqueles militantes chatos, que quer impingir a sua verdade, a toda a gente que passa, procurando a conversão imediata.
Mas é inevitável que assim seja, porque a experiência de um bom livro, muito mais do que o exercício de uma capacidade, é a descoberta da possibilidade de mergulhar em mundos inimagináveis, em corações e cérebros alheios, que, no entanto, são tão parecidos com os nossos que nos deixam de boca aberta: como é que um autor que nunca vimos, nos conhece tão bem?

Porque um bom livro parece sempre ter sido escrito apenas para os nossos olhos. Pode ser um romance, de amor, um livro de capa e espada, um policial ou um compêndio filosófico, pouco importa o género.

O único critério válido para ser chutado para o nosso Index pessoal é ser chato. Nunca devemos batalhar contra um livro que não nos diz nada, quando há tantos outros à nossa espera. Quanto muito, podemos revisitá-lo um dia mais tarde, porque um livro nunca se lê duas vezes da mesma maneira.
No estudo A Leitura em Portugal, os investigadores encontraram, para minha felicidade, a pedra filosofal.

Descobriram que aqueles que gostam de ler referem um «livro fundador», a que atribuem a magia de os ter conquistado irremediavelmente para a leitura. O fenómeno dá-se, habitualmente, pelos dez anos, mas nalguns é muito mais precoce.

Curiosamente, os inquiridos dos 15 aos 54 anos referiram aleatoriamente a sua obra, e as mais citadas foram, por ordem, a Anita, Os Cinco, e Uma Aventura. Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães eram (são) as autoras de Uma Aventura, uma escrita que inovou totalmente o mundo dos livros juvenis, substituindo o moralismo pela emoção e a descoberta.

Decididamente, a comissária do PNL há muito que deu provas de que sabe do que fala. Se já pôs os portugueses a ler de uma maneira, leva-os agora até aos livros, de uma outra.

2ª Feira 3 de Dezembro de 2007

ESTUDO SOBRE A LEITURA EM PORTUGAL

Enciclopédias
Se for à estante de um português, em 81% dos casos estão enciclopédias ou dicionários, 64% livros escolares, 61%livros de culinária, decoração e bricolage, 53%romances de amor e 50% romances de autores contemporâneos.

Gratuitos lidos por23%
Os jornais são o género mais lido (83%) e os diários à cabeça. Os de distribuição gratuita – no período avaliado havia o Destak e o Metro – tinham 23% do total.

Idade de aprendizagem
80% aprendeu a ler aos 6 ou 7 anos.

Televisão ganha
Quanto às actividades diárias preferidas, a TV ganha com 98%, seguindo-se-lhe a rádio (71%), os jornais (65%) e a internet (31%).

Destak 2ª Feira 3 de Dezembro de 2007

ISABEL ALÇADA


Comissária do Plano Nacional de Leitura (PNL) fala ao Destak do seu trabalho, da vontade de levar muitos mais portugueses a ler e dos dados revelados pelo novo estudo Leitura em Portugal. Para concluir que não temos mais tempo a perder, se não queremos ficar irremediavelmente atrasados.

«Precisamos de uma escada rolante para estimular a leitura»
ISABEL STILWELL
destak@destak.pt

No PNL explica-se que a leitura é a única forma a poder exercer uma cidadania activa. No entanto, 43% dos portugueses não leram um único livro em 2006.

O problema da falta de leitura.

Em Portugal é muito grave, mas se verificar que 57% leu entre um e cinco livros no último ano, e que se lê muito mais hoje do que se lia há dez anos (mais 7 pontos percentuais), percebe-se que estamos no bom caminho. Mas não podemos continuar a dar-nos ao luxo de ter escadas com degraus gigantes, que só alguns conseguem subir. Precisamos de optar por umas escadas rolantes!

O estudo «A leitura em Portugal» é um desses passos?
Termos implementado o PNL e no primeiro ano elaborar cinco estudos prova que sempre é possível andar para a frente. Estes estudos são fundamentais para que as estratégias definidas sejam avaliadas e sustentadas.

Mas 7 pontos percentuais não a contentam?
É uma subida muito baixa, que corresponde apenas ao desenvolvimento social e económico do País. Mas os mais novos lêem mais, e o número das pessoas que lêem apenas facturas, recibos, etc., desceu para 5%.

Há 10 ano seriam 12%.E lêem-se mais jornais. O estudo indica, Por exemplo, que os gratuitos representam 23% da Leitura de jornais.
É um fenómeno importante, que revela como quando inventamos formas diferentes de chegar às pessoas, elas lêem.

Pela sua parte está absolutamente envolvida no PNL. Em que consiste?
É uma iniciativa conjunta do Ministério da Educação, da Cultura e dos Assuntos Parlamentares, que quer promover a leitura, assegurar apoio e formação a quem trabalha nestas áreas, optimizar recursos e criar um ambiente favorável à leitura. Neste primeiro ano, a acção dirigiu-se sobretudo aos jardins infantis e a escolas até ao 2º ciclo.

O que deve fazer uma escola que pretenda aderir ao PNL?
Candidatar-se a apoio financeiro para comprar livros para as salas de aula. A candidatura é feita por agrupamento de escolas, para que os professores se reúnam e pensem em conjunto uma política de leitura, que faça sentido para a criança que vai progredindo de um ano para o outro, de uma escola para a outra. Na ficha de candidatura indicamos livros seleccionados de entre a lista recomendada pelo PNL.

O PNL faz chegar esses livros às escolas?
Optámos por não fazer uma compra centralizada. Enviamos o dinheiro para as escolas de forma a que possam comprar os livros, até porque, indirectamente, é desejável dinamizar o mercado livreiro de cada local.

A que faixa etária pertencem os leitores mais ávidos?
Os estudos deixam claro que as crianças pequeninas revelam uma apetência enorme pelos livros. Introduzimos a leitura diária no jardim-de-infância, e momentos de leitura nas salas de aula, nos outros anos de escolaridade.
Os dados indicam que uma vez leitora, a pessoa fica para sempre leitora.

O PNL baseou-se em experiências dos países nórdicos?
O Estudo da Leitura em Portugal revela que a família e a escola são fundamentais para se adquirirem hábitos de leitura, e descobrir o prazer de ler. As crianças nórdicas aos 6 anos já ouviram ler alto, durante 500 horas!
Para quem ouviu ler na primeira infância, aprender a ler é muito mais fácil.

Temos 10% de «chumbos» no 1.º ciclo, os números mais altos da Europa, por que as nossas crianças não dominam a leitura.
Sabe-se que o cérebro tem funções que devem ser desenvolvidas no momento certo, sob risco de se perderem para sempre. Sabia que uma criança que nasce com cataratas, se não for operada nos dois primeiros meses, perde para sempre a capacidade de ver? Algo de semelhante se passa na leitura.

Projectos para 2008?
Com a adesão extraordinária que se registou, temos todo o estímulo para continuar, pois recebemos muito apoio das autarquias. Temos ainda a ambição de conquistar todos os portugueses para a leitura, porque dela depende uma sociedade desenvolvida.

LEITURA Entre as novas iniciativas a nível de leitura, será reforçado o site Clube das Leituras, centrado em livros e autores, que foi desenvolvido em parceria com a Universidade Nova de Lisboa. Os pais também serão incentivados a lerem com as suas crianças pelos próprios profissionais médicos, uma medida pioneira na área.

2ª Feira 3 de Dezembro de 2007

domingo, 2 de dezembro de 2007

Diferenças com o Brasil vão continuar

Custa dinheiro e não tem nenhuma vantagem para Portugal, afirmam os que se opõem ao acordo. Além disso, acrescentam, "nem sequer é um acordo", porque há palavras que se vão continuar a escrever de maneira diferente em Portugal e no Brasil.

Vai continuar a haver duas grafias

"O acordo mantém as diferenças, não vai unificar nada. Estão a substituir umas diferenças por outras", argumenta Inês Pedrosa, citando os casos em que permanece uma grafia diferente para a mesma palavra para ela ser o mais próxima possível da forma como é pronunciada ("recepção" no Brasil, onde se pronuncia o "p", e "receção" em Portugal, onde não se pronuncia).

Enquanto escritora publicada no Brasil, mantendo a grafia portuguesa, Inês Pedrosa não vê qualquer vantagem. "Nunca nenhum dos meus leitores brasileiros me disse que tinha tido problemas com a grafia. Eu também prefiro ler o brasileiro na sua música original, que a grafia também exprime."

Os equívocos que possam surgir são semânticos - "e esses continuarão e até são criativos".
"Os redactores do acordo perceberam que o modo como a língua é falada e escrita é tão distante que não é possível encontrar uma solução gráfica para tudo", explica o linguista Ivo Castro. "Em vez de se dizer que a palavra se escreve em todo o lado da mesma forma, estabelece-se que em cada país escreve-se como aí é pronunciada. É a diferença entre ter duas pessoas a discutir uma com a outra ou as duas combinarem que estão em desacordo."

Não nos vamos entender melhor

"A língua não é beneficiada nem prejudicada de forma significativa" com este acordo, considera Ivo Castro. Na verdade, este "pouco muda os nossos hábitos".

Há quem argumente que, se o que se pretende é um melhor entendimento, esse não vai ser possível, porque, se há equívocos entre portugueses e brasileiros, eles têm a ver com a riqueza da língua e não com a grafia. O brasileiro Ruy Castro, autor do livro Carnaval no Fogo, contou a propósito (na Folha de São Paulo) um episódio exemplar. Um dia, em Portugal, teria dito a uma secretária: "Isabel, por favor, chame o bombeiro para consertar a descarga da privada." Perante o espanto de Isabel, teve que ser ajudado por um amigo que fez a "tradução": "Isabel, por favor, chame o canalizador para reparar o autoclismo da retrete."

Tem custos económicos

A revista brasileira Isto É perguntou a Mia Couto o que pensava do acordo ortográfico.
Considerando que "não vai mudar a fundo as coisas", o escritor moçambicano criticou o facto de "as implicações que isso tem do ponto de vista económico [acabarem] sempre por sobrar para os países mais pobres". Para Mia Couto, "com esse dinheiro pode-se fazer coisas mais importantes, como, por exemplo, aumentar o conhecimento que temos uns dos outros". E lamentou: "Circulo por São Paulo e a maior parte das pessoas nem sabe o que é Moçambique."

Vasco Teixeira, presidente da Porto Editora, interroga-se, por seu lado, sobre o que vai o Governo fazer com as centenas de milhares ou milhões de livros que acabou de adquirir para o Plano Nacional de Leitura. Quando o acordo começar a ser aplicado nas escolas, argumenta Vasco Teixeira, os livros das bibliotecas terão também que ser substituídos, porque, "numa fase de sedimentação da aprendizagem, ter acesso a duas grafias confunde as crianças".

Apesar disso, o presidente da Porto Editora não vê grandes vantagens na moratória de dez anos. "Não são precisos dez anos para aplicar o acordo ao sistema educativo", diz. "Bastariam quatro ou cinco anos." A.P.C.

Público 29.11.2007

Aprender a escrever vai passar a ser mais fácil

O grande argumento (que não é necessariamente a favor, mas simplesmente realista) é que Portugal já não pode recuar num acordo que já assinou, e que agora só tem que ratificar. O que dizem os seus defensores?


É o acordo possível

Este é, com as diferenças que consagra, o acordo possível neste momento histórico, diz Malaca Casteleiro, linguista da Academia das Ciências de Lisboa e um dos responsáveis pelo Acordo Ortográfico (está ligado ao processo desde 1986). "A unificação absoluta [da grafia] tentou-se em 1945 e impunha ao Brasil o ponto de vista de Portugal [impunha, por exemplo, as consoantes mudas que o Brasil não usava], e é evidente que o Brasil não acatou."

O acordo estabelecido em 1990 é "realista". "Ficamos com uma ortografia tão unificada quanto possível, sendo que é fácil memorizar os casos em que há dupla ortografia ou acentuação", refere Malaca Casteleiro.



Facilita a aprendizagem e a comunicação

O acordo aproxima a escrita da fala. "Seguiu-se o critério da pronúncia em detrimento do critério etimológico", explica Malaca Casteleiro. "Há certos casos, como a palavra "característica" em que há pessoas que pronunciam o "c" e outras que não. Se se consagrar a escrita opcional, não vem daí mal ao mundo." (Graça Moura, num artigo recente no Diário de Notícias, contestava esta regra, afirmando que "o "c" que querem suprimir [...] é quase sempre essencial para abrir a vogal que o antecede", como em "acção", e que tirá-lo afecta a pronúncia da palavra).

Esta aproximação entre a forma de dizer e escrever facilita a aprendizagem, segundo Malaca Casteleiro. José Eduardo Agualusa afirma que essa é, aliás, uma das grandes vantagens deste acordo para a alfabetização, que é uma das grandes prioridades dos países africanos.

Outra vantagem, dizem os defensores do acordo, como o especialista em assuntos africanos Jonuel Gonçalves (num artigo publicado há dias no PÚBLICO), é, por exemplo, permitir que em cimeiras internacionais com países lusófonos os textos tenham uma redacção única, "evitando-se situações, como ocorreu numa cimeira [da CPLP], em que foram exigidos dois textos de resolução final... na mesma língua". Jonuel Gonçalves lembra ainda que "a língua evolui", apesar dos nostálgicos de palavras como "pharmacia", "telephonico" ou "commércio". "Já D. Dinis teve que enfrentar narizes torcidos dos tracionalistas quando oficializou a língua em detrimento do latim", escreve.


Não podemos ficar de fora

É tarde para sair do comboio. Esta é, para Francisco José Viegas, escritor e director da Casa Fernando Pessoa, uma das grandes razões para se avançar para o acordo. "É verdade que os brasileiros se prepararam. Nós não tivemos nenhuma política de defesa da língua, não tivemos uma política de expansão da língua no estrangeiro, não fizemos o trabalho de casa. Não vale a pena ser conservador quando não há nada a conservar."

Os brasileiros, diz, "têm cada vez mais gente em Angola, em Moçambique, e mais cedo ou mais tarde vão ser eles a locomotiva". Dá como exemplo Maputo, "onde as aulas de Português para estrangeiros são dadas pelo Centro Cultural Brasileiro".

Viegas pensa que perdemos 17 anos, quando nos poderíamos também ter preparado, a nível editorial, para um acordo que, desde que foi assinado por Portugal, era uma inevitabilidade. "Tivemos 17 anos para discutir, e ninguém quis discutir." Além disso, argumenta ainda, chegámos a um ponto em que "o português já não nos pertence" e por isso temos toda a vantagem em "discuti-lo com quem o fala" - nomeadamente os 180 milhões de brasileiros. A.P.C.

Público 29.11.2007

No país sem consoantes mudas espera-se por Portugal para avançar

Em teoria, as alterações previstas já transbordam para o quotidiano do Brasil. No plano das intenções, o país com 187 milhões de pessoas a falar português queria formalizar a entrada em vigor do Acordo Ortográfico já em 2008. E deu sinais nesse sentido. O desaparecimento do trema, por exemplo, foi decretado no final do ano passado. A extinção dos dois pontos em cima do "u" é um dos indícios dessa vontade. Na prática, o Brasil está à espera. O léxico diplomático ajuda a ocultar alguma saturação com os impasses do outro lado do Atlântico.

"A gente quer marchar com Portugal. E não avançar sem ele, isso não faria sentido", disse ao PÚBLICO Godofredo Oliveira Neto, que preside ao organismo responsável pela concretização do acordo, a Comissão para Definição da Política de Ensino-Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa (Colip).

O Brasil podia já ter avançado, uma vez que o acordo já foi ratificado por mais de três países, limite mínimo estabelecido pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)." Diplomaticamente, nós reavaliámos a situação e constatámos que o acordo, que era algo para unificar a ortografia, já nasceria desunido, se o acto de adopção fosse isolado", vinca.

A classe académica é mais contundente na reacção. "A indefinição de Portugal está a emperrar todo o processo. Não se percebe e não quero admitir que os adiamentos sejam motivados pelos receios de "brasileirização" da língua", solta Emerson Inácio, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo. As editoras preparavam-se para avançar com as alterações em Dezembro, final do período lectivo no Brasil.

O impasse é, então, político. Recentemente, o ministro das Relações Exteriores do Brasil evitou responder se o país avançaria sem Portugal. Sintetizou apenas o sentimento que povoa alguns sectores "Seria muito importante, do ponto de vista editorial, que Brasil e Portugal estivessem juntos quando se formalizar a adopção do Acordo Ortográfico", referiu. Na maioria dos casos, os membros do Governo de Lula da Silva evitam o tema.

"Oi?"

Pelas ruas do Rio de Janeiro, apenas com algumas excepções, as perguntas esbarram num invariável "oi" interrogativo. "Acordo quê?" Ou "Ah sim, aquilo da escrita, não é?"

Alberto Fonseca sabe do que se fala. "Se for para melhorar, para pôr tudo igual, acho muito bem", atira do balcão da lanchonete que possui junto à Praça da Cinelândia, no centro do Rio. "Outro acordo?", pergunta o taxista Adilson Costa. "Eu só não sei é para quê, falamos todos português. Só muda o sotaque."

A percepção (perceção), e o próprio vocabulário ganham outra espessura na zona sul da cidade. Nos bairros de Ipanema, Copacabana e Leblon o tema é familiar. "É uma bobagem essa ideia utópica de que o acordo vai transformar o português numa língua de relações internacionais", reage o médico Adalberto Iguateri. "Se era para mexer, deviam ter ido mais longe, é uma reforma acanhada", reforça. Sentada numa das esplanadas de Copacabana, Alice Dias folheia um livro. "Você sabia que o Saramago não necessitou ser "traduzido" para ser um best-seller no Brasil. Nem a outra senhora mais nova..." Concluiu-se que falava de Inês Pedrosa. "Eu acho muito bem, a língua é um património comum, deve unificar-se na forma escrita. Depois, pode ter vários sotaques." Alice Dias já foi professora, mas de Biologia.

Amiúde, o embaixador português Francisco Seixas da Costa participa em programas de televisão e escreve artigos de opinião sobre o assunto, desvalorizando o atraso e criticando alguma dramatização, "como se uns anos a mais ou a menos na conclusão de um texto trouxessem algum mal ao mundo, que viveu sem ele até agora", escrevia em Setembro (setembro) no jornal Estado de São Paulo.

O dedo no horizonte

Além do moribundo trema, a reforma acaba também com os acentos de "vôo", "lêem", "heróico". E premeia a semântica brasileira, que vê a extinção do "p", em prática no país, instituída.

Pequenas mudanças, vinca o também escritor Godofredo Neto. Mas com grande simbolismo, acrescenta. "São inúmeras as vantagens que advêm da efectiva (efetiva) adopção das normas já acordadas. Em primeiro lugar, a promoção e a funcionalidade do uso da língua portuguesa nos fóruns internacionais, por exemplo." Neto diz que não se cansa de alertar para a vacuidade dos "velhos do Restelo" da língua portuguesa. "A unificação ortográfica não atenta contra a variedade da língua oral, nem contra a riqueza das manifestações culturais que a língua veicula."

Emerson Inácio concorda. Acredita que a sala de aula será o melhor laboratório. "Não tenho dúvida de que, quando a nova ortografia chegar às escolas, toda a sociedade vai acompanhar as mudanças. Vai levar tempo, como ocorreu com a reforma ortográfica de 1971, mas ela entrará em vigor gradualmente."

O pior são os custos. Os editores consideram-se os perdedores do acordo. Estima-se que o custo médio de revisão de um livro possa atingir os cinco mil reais (18 mil euros). "A minha editora é pequena, mas vou ter de gastar um balúrdio. Espero é que a reforma venha para ficar", disse ao PÚBLICO Jerson Andrade, da editora Estandarte, do Rio de Janeiro.

Para atenuar os receios causados por estas consequências, o presidente da Colip aponta para o horizonte. "Vai exigir ginástica, vai implicar investimentos, mas é um legado que deixamos à história. Afinal, somos a terceira língua mais falada do mundo ocidental."

Público 29.11.2007, Nuno Amaral, Rio de Janeiro

"Catástrofe", um "favor ao Brasil" ou uma oportunidade?

"Os brasileiros têm um problema, nós não. Isto é um favor que a diplomacia portuguesa está a fazer à brasileira, e é triste que a língua sirva de moeda de troca" Vasco Teixeira, editor português.

Passaram-se 17 anos e o Acordo Ortográfico entre os países de língua portuguesa - que, segundo anunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, vai ser ratificado até ao final do ano, com uma moratória de dez anos para a entrada em vigor em Portugal - continua tão polémico como sempre.

É "catastrófico no plano científico, económico e geoestratégico", garante o escritor e tradutor Vasco Graça Moura sobre este esforço para aproximar as grafias usadas por um lado por Portugal, os países africanos e Timor da grafia usada pelo Brasil. Resulta de "uma falta de visão estratégica", diz Vasco Teixeira, presidente da Porto Editora. É "bom para todos", defende o escritor José Eduardo Agualusa. É, essencialmente, "uma questão política", afirma o linguista Ivo Castro.

Desde o anúncio de Luís Amado que muitos portugueses se interrogam sobre as razões que levaram a despertar o acordo que parecia adormecido desde 1990. A verdade é que não estava tão adormecido como isso - em 2006 Cabo Verde e São Tomé ratificaram-no, juntando-se assim ao Brasil. Isto significa que já existem as três ratificações necessárias para que o acordo entre em vigor imediatamente nesses países, o que fez aumentar a pressão sobre Portugal para que ratificasse também.

O que farão os africanos?

A grande incógnita depois é o que farão os restantes países - Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste. E não é uma questão secundária. Ivo Castro avisa: "Se Portugal aderir sem previamente se assegurar que os restantes aderem, estará a romper a união ortográfica com Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor. Não sei até que ponto isso é compensado pela hipótese de uma união ortográfica com o Brasil." O linguista está convencido de que "Angola é o país que menos interessado está na ortografia".

Opinião diametralmente oposta é a de Agualusa, que não compreende "a oposição que tem havido em Portugal ao acordo". O escritor angolano, que vive entre Angola, Portugal e o Brasil, acha que "para um país como Angola é muito importante aplicar o acordo, porque este vai fazer aumentar a circulação do livro e facilitar a aprendizagem e a alfabetização, que é, neste momento, a coisa mais premente para Angola e Moçambique". Defendendo que, "se Portugal não quiser o acordo, então Angola deve avançar e Portugal fica isolado", Agualusa mostra-se convencido de que, "se o Brasil avançar, Angola não vai demorar muito tempo".

O mercado do livro escolar

Neste momento, em Angola o processo está a ser estudado pelos ministérios da Educação e Relações Exteriores, após o que terá que ir a Conselho de Ministros e ao Parlamento para aprovação, disse ao PÚBLICO o adido de imprensa da embaixada em Lisboa, Estevão Alberto - informação que confirma que, pelo menos, o acordo não está "adormecido".

Uma das questões centrais de todo este debate é fácil de perceber: os países africanos de língua oficial portuguesa, sobretudo Angola e Moçambique, são importantes mercados para os livros (os escolares, em primeiro lugar), que neste momento são fornecidos por Portugal. Um acordo ortográfico deixaria o Brasil numa situação muito mais favorável para entrar nesses mercados.

Vasco Teixeira, presidente da Porto Editora (que, juntamente com a Texto Editora, fornece a maioria dos manuais escolares a Angola e Moçambique), admite que essa questão é importante, mas julga que "as editoras [portuguesas] nalguns casos até poderão ganhar". Contudo, o que está em causa "não é um problema de negócios", mas sim "uma visão estratégica para a língua portuguesa". E sublinha: "Os brasileiros têm um problema, nós não temos. Isto é um favor que a diplomacia portuguesa está a fazer à brasileira, e é triste que a língua sirva de moeda de troca entre diplomacias."

O acordo "abre a porta ao Brasil nos países africanos, onde até agora não conseguiram entrar", diz Vasco Graça Moura. "Isto serve para beneficiar a indústria editorial brasileira. Como eles já têm tudo adaptado ao acordo, assim que entrar em vigor avançam imediatamente. Nós já temos uma edição pelas ruas da amargura e vamos ficar com ela pior." As alterações no Brasil afectam apenas 0,5 por cento das palavras e em Portugal 1,6 por cento.

Aproveitar o Brasil

É tudo uma questão de saber aproveitar as oportunidades, contrapõe Agualusa, para quem o acordo abre a Portugal o mercado brasileiro. "Uma das áreas em que Portugal é muito superior ao Brasil é na dos livros para crianças, só que não investe nisso." Além disso, "80 por cento dos livros no Brasil ficam no Rio de Janeiro e em São Paulo", o que deixa todo o resto do país de 180 milhões por explorar.

Para ser aprovado, o acordo tem ainda que passar pelo Conselho de Ministros e pelo
Parlamento. A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, disse na terça-feira que o seu ministério, em conjunto com o da Educação, defenderam a moratória de dez anos, que foi aceite pelo MNE, "para proceder à sensibilização dos editores" e preparar a introdução do acordo nas escolas.

Ninguém sabe exactamente (o PÚBLICO pediu essa informação ao Ministério da Educação, mas não recebeu resposta em tempo útil) quando é que o acordo começará a ser aplicado nas escolas, mas a moratória de dez anos visa precisamente evitar os custos da substituição imediata dos manuais escolares.

Mas o que acontecerá, se, de repente, os países que ainda não ratificaram decidirem acelerar o processo e adoptar a nova grafia num prazo mais curto que os dez anos? "Se isso acontecer", disse Pires de Lima, "Portugal reverá a sua posição e procurará ser mais célere."

Público 29.11.2007, Alexandra Prado Coelho